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Soldada da Rondesp é a primeira especialista para atuação em grandes confrontos

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Dos 45 PMs que iniciaram o curso em Patrulhamento Tático Móvel, apenas 25 se formaram; Alane foi a única mulher na Bahia a conseguir a formação

 

“A Rondesp não existe para instalar o paraíso, mas para evitar que o inferno se instale.” A frase, pintada na parede do pátio da Companhia Independente de Policiamento Tático Atlântico (CIPT/Atlântico), no bairro do Costa Azul, anuncia para os visitantes: ali estão os policiais militares conhecidos por serem os mais “linha-dura” do estado. Ou como preferem falar, os profissionais mais preparados para situações consideradas “delicadas”.

Entre o quadro de 90 policiais, uma em especial chama atenção. Alane Benedetto, 31 anos, que serve a PM há seis, conseguiu um grande feito. Ela é a única mulher do estado, em um grupo com 56 homens, a se tornar especialista em Patrulhamento Tático Móvel (Patamo) – subunidade do Batalhão de Polícia de Choque, criada para atuar em ações emergenciais nos bairros em situações de grandes confrontos, principalmente naqueles com presença do tráfico de drogas. A especialização prepara o PM para se comportar em situações de grande pressão psicológica e que exige grande esforço físico.

E até se tornar um especialista, os PMs precisam, além da preparação física e psicológica, enfrentar uma maratona desgastante de testes. Para se ter uma ideia, nem todos os inscritos conseguem chegar até o final do curso que, neste ano, teve duração de 60 dias. Muitos acabam ficando no meio do caminho, tamanha a dificuldade das provas.

Educadora física, Alane resistiu até o final. Ficou na lista dos 25 profissionais aprovados, desbancando muitos marmanjos e ostentando a 6ª colocação. O curso contou com a participação de 45 pessoas, e a primeira etapa foi o Teste de Aptidão Física (TAF), que aconteceu em maio.

Nesse teste que antecedeu a formação, os candidatos participaram de provas de natação, corrida, abdominais e flexões. Sobre a especialização, a PM prefere não revelar muita coisa, apenas conta que nem todo mundo é capaz de suportar. “São questões que vão dizer se o aluno pode continuar ou não. São vários motivos e, infelizmente, alguns não conseguiram continuar.” Foi a segunda tentativa para integrar o seleto grupo de oficiais e praças especialistas em Tático Móvel.

Do período de formação, ficaram as marcas que a PM carrega com ela, sinais de quão difícil foi chegar até lá. São cicatrizes espalhadas nas mãos, pernas e joelhos que, para ela, significam resistência e amor pela profissão. “São de superação, é uma honra tê-las. Não é problema nenhum, pelo contrário, mostra o quanto sou forte e o quanto eu adquiri de aprendizado nessa etapa da minha vida”, pontua. “Não passei na primeira, mas me preparei durante um ano, concentrando-me em atividades físicas mais pesadas, para ficar em condições de participar desta segunda turma”, ressaltou.

Nada de sexo frágil
Se ainda há alguma dúvida de que mulher não é sinônimo de sexo frágil, Alane acaba por exterminá-la. Tímida, mas de uma voz firme que, por vezes, pode intimidar seu interlocutor, a PM só demonstra fraqueza quando fala de duas pessoas que, inclusive, foram essenciais para sua carreira. “Minha mãe é uma guerreira, um exemplo de mãe e mulher. Eu digo que sou uma pessoa iluminada porque acho que vim a esse mundo para resgatar alguma coisa junto a ela. Tomo ela como exemplo para tudo”.

A outra pessoa é a sua avó. Uma mulher conhecida por ser durona. Segundo Alane, ela só viu a avó chorar uma única vez. E foi exatamente no evento de solenidade do encerramento do curso. “Quando olhei a minha avó e vi as lágrimas escorrendo também não resisti”, conta.

A policial está todos os dias em locais de risco e próxima do mais temido acontecimento humano: a morte. Mas engana-se que esse é o grande temor dela. “O único medo que eu carrego comigo é o de decepcionar a minha mãe, só isso”, diz.

Batom na bolsa; submetralhadora na mão
Quando entra na linha de combate contra o tráfico e o crime organizado, Alane deixa o batom e o rímel na bolsa e coloca a tiracolo o seu equipamento de trabalho, uma submetralhadora ponto 40, arma capaz de causar “destruição total” no inimigo, como costumam dizer seus colegas de trabalho.

Antes de vestir a farda, ela conta que não dispensa os cosméticos, mas destaca que os produtos de beleza são apenas para os cuidados básicos. “Coisa boba, um cuidado que toda mulher tem e que todos os homens deveriam ter. Nada exagerado”, conclui.

No CIPT/Atlântico, onde a maioria são homens – dos 90 policias loteados, apenas sete são mulheres – ela é respeitada por todos e por lá não há tratamento diferenciado. Mas uma coisa é certa: Alane é mesmo motivo de orgulho e até o major Edmundo Assemany, comandante do grupo, sabe da relevância da sua conquista.

“Alane é responsável por desconstruir isso de que mulher não consegue fazer as mesmas coisas que os homens. Pelo contrário, ela teve um lugar de destaque no concurso. Um curso difícil, longo e que exige muito do físico e do intelecto”, destaca o major.

“Não me pergunte por que decidi ser uma policial. Tem coisas que não tem explicação. Vem de dentro e é inexplicável. É como o amor, você procura palavras para descrever, mas não consegue. É exatamente isso que eu cultivo pela minha farda”, destaca Alane.