Bahia

Saga de herói

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O próximo filme do diretor baiano Sérgio Machado (Cidade Baixa, Quincas Berro d’Água) terá como personagens principais duas figuras que nunca se viram como estrelas: o pugilista baiano Reginaldo ‘Holyfield’ Andrade e o pernambucano Luciano ‘Todo Duro’ Torres. O longa-metragem A Luta do Século, que será lançado em março, conta a história da sua rivalidade que marcou época nos anos 1990, sempre com ginásios superlotados e o mis-en-scène das provocações.
O longa foi exibido pela primeira vez no Festival do Rio, no começo de outubro, com a presença dos dois no auditório. A plateia desta vez não tinha torcedores raivosos; eram, na sua maioria, personalidades do cinema brasileiro. Ao final da exibição, todos ficaram de pé para aplaudir a dupla: “Foram dois minutos de aplausos, eu contei! Tudo ator e cineasta importante, aplaudindo o Negão!”, lembra Charles Nascimento, empresário de Holyfield. “Eu fiquei de cara. Pensei: ‘Oxe! Tanto artista da Globo assim me aplaudindo… Eu nem sou artista!”, lembra o pugilista.
Apesar de negar o estrelato, Holyfield não consegue sair de casa sem ser parado. Na periferia ou nos ‘bairros de barão’, como chama, todos mexem com o pugilista, seja para gritar o ‘ruma, Holyfield!’, seu bordão, como para tirar uma foto com o ídolo. Mas ídolo por quê? “Acho que as pessoas gostam da minha humildade”, reflete. “Elas sabem da minha história de luta, que rodei o Brasil representando a Bahia. E eu não ando de carro por aí, eu ando na rua mesmo, falando com as pessoas. Não sou peitudo, vaidoso. Eu tenho meu jeito”.
“Acho que tem uma coisa de ele ser puro, inocente. E se deve muito à rivalidade com Todo Duro, também”, opina Sérgio Machado. “Se não houvesse a rivalidade, Holyfield seria hoje como outros que tiveram certo brilho como atletas e depois sumiram. Ele e Todo Duro nunca foram campeões fora de série, como Popó, por exemplo. Um deve muito ao outro”.
O diretor concorda que Holyfield é um personagem do imaginário baiano. Tem estado ali há muito tempo, todos o reconhecem, mas ninguém ainda o havia visto como tema de cinema. “Eu estava na Fonte Nova, num Ba-Vi, quando Holyfield entrou na torcida do Vitória. As pessoas que o viram começaram a aplaudir. Eu pensei ‘que legal, esse cara é aplaudido pelas torcidas rivais”, filosofa o diretor sobre o assunto.
Nem tão estrela assim
Aos 50 anos, Holyfield não conseguiu transformar o reconhecimento em conforto. Vive entre duas casas, ambas no bairro da Massaranduba. Em uma mora com as filhas – Pamela, 23, e Viviane, 29, ambas desempregadas – e o marido da mais velha, Emerson, 32. O casal tem dois filhos, Emerson Júnior, 11, e Evelyn, 8. Na outra casa vive a mãe do pugilista, Maria de Lourdes, de 93 anos, junto a irmãos e sobrinhos dele. Holyfield é viúvo. Sua esposa, Iraildes, morreu em janeiro de 2011.
Como título mais expressivo na carreira, chegou a ser campeão latino-americano da Federação Internacional de Boxe (FIB), uma das quatro maiores organizações do esporte, em maio de 1995. Apesar de ter sido dono do cinturão por dois anos, passou longe do circuito norte-americano da entidade e das suas bolsas milionárias. Também obteve em novembro de 1995 o cinturão da Federação Mundial de Boxe (FMB), título considerado de segundo escalão, mas que já teve o brasileiro Adilson Maguila e o norte-americano Evander Holyfield, o original, entre seus campeões.
Reginaldo, hoje, é dependente da ajuda de amigos. Charles, seu empresário, tem responsabilidades bem maiores do que a de promover suas lutas e participações em programas de televisão. É a ele que o lutador recorre para conseguir doações de material esportivo, alguns trocados para completar a passagem de ônibus, um convite para almoçar, um quarto para dormir após o almoço, usar o celular… “A equipe dele na verdade sou eu. Quando ele precisa de um remédio, uma roupa, quem descola sou eu”, conta. Até o traje social e a mala para viajar ao festival no Rio de Janeiro foi Charles quem teve de arrumar.
Os dois se conhecem há mais de 30 anos, mas ‘trabalham’ juntos há 15. Holyfield passou a ser empresariado por Charles quando começou a ter suas lutas patrocinadas por Raimundo ‘Ravengar’, o maior traficante de drogas da Bahia, preso em 2004. Além da atividade ilícita, Ravengar mantinha uma casa de espetáculos, a Mega Show. “Ele não é meu empresário, não temos nada assinado. Somos amigos”, explica. “O Negão é um grande amigo, nunca tirei nada dele. Até porque ele não tem nada para me dar, né?”, brinca Charles.
Por intermédio de amigos, Holyfield conseguiu desde o ano passado uma ajuda da prefeitura, para onde realiza serviços participando de eventos em escolas e de cunho esportivo. Antes, desde 2013, trabalhava no gabinete do deputado estadual Roberto Carlos (PDT). Quando não está a serviço da prefeitura, perambula pela cidade visitando amigos e academias. Só tem uma rotina sagrada: acorda sempre às 5h para estudar a Bíblia e orar. Converteu-se recentemente à Igreja Universal do Reino de Deus.
A ajuda mais significativa veio após um incêndio que atingiu a casa da sua irmã, em setembro de 2011. Ao salvar dois dos seus sobrinhos das chamas, Holyfield acabou queimando 40% do corpo e ficou meses internado no Hospital Geral do Estado. Para ajudá-lo, artistas do pagode baiano fizeram o festival “Levanta Campeão!” e arrecadaram dinheiro e alimentos para a família do lutador. O próprio Todo Duro ligou para o rival para prestar solidariedade, mas ao seu modo. “Falei que só quem podia matar ele era eu”.
Em meio à comoção, Evander Holyfield gravou uma mensagem para o baiano, dizendo que ele, sim, merecia a alcunha de herói. A campanha se espalhou, e o caso chegou até o programa Caldeirão do Huck, da TV Globo, em outubro de 2011, quando Holyfield ganhou R$ 25 mil em dinheiro e R$ 25 mil em móveis para reformar sua casa. O dinheiro, porém, durou pouco: foi rateado entre os membros da família, e os eletrodomésticos, entre as duas casas.
As sequelas do acidente estão evidentes. As mãos do pugilista cicatrizaram com uma pele tão dura que já não fecham mais por completo. A perna esquerda, parte do corpo que foi mais afetada, teve que ser submetida a duas cirurgias de enxerto de pele, e como resultado perdeu a mobilidade. Por isso, Holyfield é manco. A deficiência, porém, é superada na técnica. “Ele está surpreendentemente bem. Durante as filmagens, registramos ele nocauteando um sparring (parceiro de treino)”, recorda Sérgio Machado.
Holy também fala com dificuldade, mas não sabe explicar as origens disso. A prótese que teve que colocar na boca por conta dos dentes perdidos no boxe é um dos motivos. Ela é levemente maior que a sua arcada dentária, impedindo-o de fechar a boca por completo. Pelo lado bom, Holyfield está sempre sorrindo. “Uma coisa boa, e que fica clara no filme, é que a cabeça dele está ótima. Tem uma cena em que Holyfield e Charles dialogam sobre o contrato da luta, e ele é quem toma a frente da negociação, de tão lúcido. O problema dele é de dicção, apenas”, atesta Sérgio Machado.
No tempo em que ficou sem poder lutar após o incêndio, Holyfield sentiu as dificuldades financeiras de perto e trabalhou como segurança de um supermercado na Cidade Baixa e como professor de boxe para a prefeitura de Filadélfia, no norte baiano – ambos os empregos arrumados por amigos. Ficou cerca de um ano em cada.
Em busca de algo mais sólido para a aposentadoria, Holyfield tentou por duas vezes uma vaga na Câmara Municipal de Salvador, nas eleições de 2012 e de 2016. Na primeira, pelo PDT, apoiado pelo deputado estadual Roberto Carlos, conseguiu surpreendentes 5,4 mil votos, mas não se elegeu. Na última, pelo DEM de ACM Neto, caiu para menos de dois mil votos. O grande mentor de Holyfield como vereador é Charles, que tomou a frente de toda a movimentação para a mudança de partido e para obter o apoio do prefeito. 
Segundo o empresário, o impacto nas urnas caiu consideravelmente pela falta de dinheiro, já que desta vez não contou com doações de empresários. A campanha se reduziu a caminhadas em bairros da Cidade Baixa, reduto eleitoral de Holyfield, e na distribuição de santinhos com design bastante duvidoso. O pugilista diz não ter ficado triste com a derrota: “O importante é que no final meu prefeito foi eleito. Estava fazendo campanha por ele”.
Ainda que uma ‘celebridade humilde’, Holyfield tem seus caprichos. É difícil, por exemplo, arrumar um horário em sua agenda para entrevistá-lo, e chegou a cancelar uma sessão de fotos para essa matéria porque não “estava a fim”. Por outro lado, quando enfim estava com a reportagem, topou fazer todas as poses sugeridas pelo fotógrafo com paciência solene. Por mais que pedíssemos, porém, não conseguia fazer ‘cara de mau’: “É o meu jeito”. As fotos foram tiradas na Academia Galícia, do mestre Tinho, na Fazenda Grande do Retiro, um dos muitos locais onde consegue treinar por conta da amizade.
Grande rival ou amigo
Agora, Holyfield precisa de mais uma ajuda: quem tope patrocinar aquela que, promete, será a sua última luta na carreira – contra Todo Duro, naturalmente. Seria uma chance de o baiano empatar o duelo, já que a conta está em quatro vitórias para o pernambucano contra três dele. A última luta ocorreu no Recife, em agosto do ano passado, vencido pelo dono da casa.
O público na ocasião surpreendeu: mais de cinco mil pessoas lotaram o pátio do Clube Português na noite de uma terça-feira chuvosa para ver a batalha. A maioria era formada por jovens entre 20 e 30 anos de idade – ou seja, gente que estava assistindo à rivalidade pela primeira vez. O último duelo havia acontecido em 2004, em Barreiras, no oeste baiano, vencido por Holyfield.
O reencontro aconteceu durante a filmagem do documentário, mas não estava em seu roteiro inicial: “A ideia era fazer um filme sobre dois caras que são grande ídolos mas entraram no ostracismo. Mostrar a vida deles hoje e intercalar com cenas do passado”, recorda Sérgio Machado. “Acabou que, quando a gente já tinha filmado quase tudo, eles decidiram fazer uma nova luta. No início pensei que era uma brincadeira. Continuei filmando, sem saber no que ia dar, e quando nos demos conta a coisa estava ficando séria e realmente teve uma nova luta. Aí o filme teve uma reviravolta”.
Não era a primeira vez em 11 anos que Holyfield e Todo Duro tentavam uma volta aos ringues. Em 2011 os dois chegaram perto de um reencontro, mas o incêndio acabou com as esperanças. Em 2014 uma luta de despedida chegou a ser marcada em Filadélfia, onde o baiano residia à época, mas foi cancelada por divergências no valor do cachê. Com o filme em desenvolvimento, a dupla achou o timing e o argumento perfeitos para a revanche.
Sem querer interferir em nada, Machado comenta que acabou aprovando o desfecho surpreendente do filme: “Fiquei com medo de eles acharem que eu estava incentivando os dois a voltarem a lutar. Mas aí a loucura foi que o documentário, que era para ser de dois caras que haviam parado, passou a ser sobre um recomeço”.
Quando é perguntado sobre a sua idade, Todo Duro sempre inventa alguma lorota para não dizê-la: “Eu parei nos 36. O tempo foi passando e eu continuo com a mesma cara, como é que pode isso?”, desconversa. Amigos estimam que ele tenha 53 anos. Mora em uma comunidade do bairro de Casa Forte, no norte do Recife, ao lado de uma irmã, dois sobrinhos e da filha mais velha, Sheila, de 22 anos. Assim como o rival, conta com a ajuda de amigos para treinar e manter a família e se candidatou pela primeira vez a vereador nas eleições deste ano, sem sucesso.
Irreverente, vaidoso e adepto do trash talk, bem ao estilo do lendário Muhammad Ali, foi Todo Duro quem iniciou o histórico de provocações e de brigas tão marcante. Mantém o mesmo discurso de rivalidade entre os dois estados desde os anos 1990: “Quando estou batendo em Holyfield, estou batendo na Bahia todinha. Eu não confio em baiano. Só gosto das mulheres daí. Quando eu chego em Salvador, elas me tratam como rei”, brada ao telefone ao saber que o repórter é baiano.
Aproveitando o jeitão ingênuo do rival, sempre soube como provocar Holyfield e criar um mis-en-scène. Costuma levar uma coroa de flores e um caixão com o nome do baiano para as pesagens. Numa das cenas mais emblemáticas, estavam concedendo uma entrevista coletiva antes da terceira luta entre eles, em Salvador, em 1998, quando Todo Duro levantou,  cuspiu na mão e enfiou um tapa no peito de Holyfield. O baiano, por sua vez, partiu para cima do adversário derrubando mesa e mediador. “Isso não pode dentro da Bahia, não, rapaz!”, ficou gritando quando foi acalmado.
No duelo, o clima era de guerra: “Aquilo virou fofoca em Salvador, todo mundo só falava na luta. Chamei um amigo para ir assistir”, lembra Sérgio Machado. “O Balbininho estava superlotado, eram 20 mil pessoas dentro e 20 mil fora, tentando entrar. Fiquei assustado. No início achei que  aquela euforia toda era brincadeira, mas depois as pessoas entraram em piração total. Estavam realmente dispostas a linchar Todo Duro. Um cara deu um tiro para cima, outros começaram a jogar cadeiras no ringue… Foi uma loucura”, relata.
A dupla garante que, mesmo após tantos anos, não criou qualquer tipo de apreço um pelo outro. “Não deixei ele ficar perto de mim no cinema (no Festival do Rio). Teve que ficar ele de um lado (da sala) e eu do outro”, exemplifica Luciano. “Até as fotos que tiraram com a gente depois tinha que ter alguém no meio, separando. Não consigo ficar do lado daquele Negão sem dar um pau na cara dele”, completa. “Ele me ofendeu e mexeu muito com a Bahia. Como é que eu vou ser amigo dele agora?”, finaliza Holyfield, sem querer se alongar muito sobre o tema.
A luta em Recife deixou Holyfield transtornado, mas não por conta da derrota. Ficou surpreso com a presença maciça dos pernambucanos e sentia que não teria o mesmo apoio aqui. Chegou a marcar data para a revanche em Salvador duas vezes, uma em dezembro do ano passado e uma em junho último, mas teve que cancelar por falta de patrocínio.
Missionário da paz
Numa das tardes durante o Festival do Rio, Holyfield e Charles decidiram dar um ‘zig’ para visitar um parente do empresário na Rocinha: “A gente teve que anunciar qual a casa que a gente ia antes de entrar no bairro”, lembra Charles. Holyfield conta que ficou intrigado e com medo do que via enquanto subia o morro de mototáxi: “Aquela coisa que a gente acha que só vê em cinema: um monte de traficante com rifle na mão, criança com pistola…”.
Depois que desceu da moto e tirou o capacete, o pugilista disse ter tomado um susto: “É Holyfield, porra! Ruma, Holyfield!”, gritou, segundo ele, um rapaz com uma pistola na mão. “Os caras ficaram na maior alegria. Teve um cara que entregou o rifle para um amigo dele e saiu correndo para tirar uma foto com o Negão”, lembra Charles.
O empresário conta que estava acontecendo naquele momento um confronto entre policiais e traficantes no Pavão-Pavãozinho, e a Rocinha, comunidade vizinha, estava em alerta. “Mas o Negão parou a favela, rapaz… Só você vendo”, garante. No meio da visita, a polícia decidiu fechar o acesso à Rocinha, e Holyfield e empresário ficaram presos no morro. Como resultado, passaram a noite lá e perderam o voo no dia seguinte. O pugilista não se arrepende: “Parecia que estava nas quebradas daqui de Salvador. Sou conhecido no Rio também”.
Não foi diferente na saída do Festival do Rio, no qual A Luta do Século ganhou o prêmio de melhor documentário: “Eles (Todo Duro e Holyfield) demoraram uns quarenta minutos para sair do cinema. Todo mundo queria parabenizá-los, dar um abraço”, conta Sérgio Machado. “Aquele rapaz de 300… Como é o nome? Rodrigo Santoro! Tirou foto comigo. Lázaro Ramos, Taís Araújo… Todo mundo”,  orgulha-se Holyfield. “Eu gostei do filme, até. Mas gostei mesmo foi de ver ‘os ator’ da Globo tudinho me aplaudindo. Tudo milionário”, celebra Todo Duro.
Após a experiência, Holyfield filosofa: “Olha, acho que sou uma celebridade, sim, porque as pessoas me tratam bem, conhecem minha história, apareço na TV, sou conhecido no Brasil todo… Tudo o que eu podia fazer eu fiz”, conclui. “Mas não me dá orgulho maior do que saber que as pessoas respeitam minha história. Sabem que tentei combater a pobreza através do esporte. Olha, eu não trocaria nada disso por dinheiro… Prefiro ter essa vida que tenho. Não tem como ser feliz com dinheiro e sem história”. 
A Luta do Século
Estreia em circuito nacional em março de 2017, mas poderá ser visto em sessão única, no dia 19/11