Espiritualidade

Saber morrer é o melhor remédio para crescer

A ODONTOLÓGICA é a principal Clínica da Chapada Diamantina. Atende as regiões de Itaberaba, Iaçu, Boa Vista do Tupim, Ruy Barbosa, Itaetê, Marcionílio Souza, Wagner, Utinga, Lençóis, Andaraí, Nova Redenção, Lajedinho, Ibiquera. Realiza atendimentos com especialistas em odontologia nas áreas de ortodontia, implantes, cirurgia, endodontia (tratamento de canal), odontopediatria, restaurações, periodontia, laserterapia, estética. Procedimentos Realizados: Restaurações, Estética, Periodontia, Tratamento de canal, Ortodontia, Aparelho ortodôntico, Extrações, Profilaxia, Remoção de tártaro, Implante, Enxerto ósseo, Levantamento de seio maxilar, Implantes Carga Imediata. Dr. Gardel Costa é Doutorando, Mestre e Especialista em Implantes, Especialista em Ortodontia, pós-graduado pela New York University.

Anos atrás, li o livro “Comunidade: lugar do perdão e festa” que me marcou muito e até hoje procuro reler e relembrar alguns de seus pontos principais. O livro é escrito pelo filósofo e teólogo francês, Jean Vanier, fundador da comunidade L’Arche, que se tornou uma federação de 149 comunidades espalhada por 37 países. A comunidade foi criada para oferecer a pessoas com deficiência mental uma vida em comunidade com seus cuidadores e voluntários.

No livro, Vanier fala de como nossa vida em comunidade implica muitas vezes perder as ilusões e que essa perda é o caminho para o crescimento. Por isso diz que “crescer é aprender a morrer” (p.194). A cada nova fase da vida, temos de deixar certas coisas ou modos para trás e prosseguir adiante. Isso significa lidar com perdas, o que pode ser muito doloroso.

Inspirado na relação de Pedro com Jesus, Vanier sugere que assim como Pedro passamos como comunidade por quatro crises. A primeira é a do chamado ou entrada na comunidade. Deixamos velhos relacionamentos e modo de viver para trás. Talvez ainda preservemos laços com os lugares e valores que deixamos. A segunda é quando descobrimos que a comunidade não é tudo aquilo que achávamos que era ou que devia ser. É a decepção causada pelo choque entre a ilusão ou ideal que tínhamos com a realidade. Corresponde ao momento em que Pedro descobre que Jesus não seria o messias que ele desejava ou imaginava. A terceira crise envolve rejeição e incompreensão. Quando percebemos que a comunidade não nos entende, que não seremos escolhidos para essa ou aquela função e talvez nem reeleitos para o cargo que ocupamos. A quarta crise, a mais dolorosa, é a que gera revolta, talvez ciúme. Quando nos vemos decepcionados, quem sabe traídos, e, sobretudo tomados de um sentimento de incapacidade, inadequação, incompetência para continuar fazendo o que estamos fazendo. Essa crise muitas vezes nos leva ao abandono, desistência e isolamento.

Essas crises representam um choque entre nossas ilusões e ideais, de um lado, e a realidade, do outro. Cada uma delas faz morrer em nós desejos, ideais, visões, paixões e imagens que criamos de nós mesmos, das pessoas e da comunidade.

Mas a ideia de fazer morrer para poder crescer nos faz lembrar pelo menos duas figuras bíblicas, ambas extraídas da própria natureza. A primeira é a da aliança de Deus com Noé e seus descendentes em Gênesis 9. Depois da corrupção da humanidade, do dilúvio e do resgate da família de Noé, Deus renova a bênção dada a Adão de torná-lo fecundo, multiplicá-lo e espalhá-lo pela terra. Porém, ao contrário da aliança com Adão, a de Noé incluía a morte. A partir de então a morte faz parte da manutenção da vida. Enquanto a Adão foi dada toda sorte de vegetais para alimento (Gn 1.31), a Noé Deus dá também a carne animal (Gn 9.). Por isso, a morte sustenta a vida. A morte do animal dá vida ao ser humano. Eu chamo isso de paradoxo da vida. Para o ser humano viver é preciso haver morte. Penso que isso não só delimita a vida física, mas também estabelece um princípio ou axioma do sacrifício. O acesso à vida e comunhão com Deus se dá por meio da morte, primeiro do animal como sacrifício, depois de outro ser humano, Jesus Cristo. A morte sustenta a vida. A vida se mantém pela morte.

Outra figura bíblica é a do grão de trigo que precisa morrer para produzir fruto (Jo 12.24). Ao aproximar o tempo de sua crucificação, Jesus diz aos discípulos que era preciso que ele morresse para que fosse glorificado. A sua morte abriu o caminho para a vida por meio da ressurreição. Era preciso que ele morresse para ter vida e nos dar vida. Mas com isso Jesus também aponta para um modo de vida. Todo aquele que desejar preservar sua vida irá perdê-la, mas quem a perder (ou odiá-la) a preservará para sempre (Jo 12.25). O chamado para seguir a Jesus é o chamado para morrer a fim de viver.

Vejo que esse princípio de morrer para viver ou crescer se aplica a inúmeras situações de nossa vida. Pastores que, depois de alguns anos em suas comunidades, se veem decepcionados com a comunidade ou consigo mesmos; membros de igreja decepcionados com a comunidade ou com sua liderança; missionários em choque cultural e sentimento de incapacidade ou inadequação para aquele ministério; profissionais que se questionam se fizeram as escolhas corretas na vida; casais na fase de desilusão e decepção com o relacionamento; adultos em meia-idade ressentidos e sem perspectiva. Cada uma dessas situações podem nos levar ao abandono e isolamento. Mas viver e crescer é saber morrer. Então, é preciso fazer morrer algumas coisas para encontrarmos novamente vida.

Pastor presbiteriano, doutor em Antigo Testamento e diretor acadêmico da Faculdade Teológica Sul-Americana, em Londrina (PR).