Bahia

Na ‘Serra Pelada da Bahia’, só a água é tão cobiçada quanto as ametistas

Na mina já apelidada de Serra Pelada da Bahia, só um artigo é tão cobiçado quanto as ametistas: água. Sem fonte para consumo humano em um raio de aproximadamente dez quilômetros, os garimpeiros têm de recorrer a fornecedores que impõem preços bem acima da média.

Nos acampamentos, donos de carros-pipas cobram, em geral, R$ 5 por um galão com cinco litros, cuja qualidade inspira cuidados no uso. Nos pequenos comércios improvisados nas bases do garimpo, a garrafinha com meio litro de água mineral é vendida por, no mínimo, R$ 3.

Poço de água lamacenta vira opção para quem não tem dinheiro
(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

O valor dobra quando a compra é feita no alto da mina, onde são frequentes os leilões. Em um deles, presenciado pela reportagem, um vasilhame com 20 litros de água mineral foi arrematado por R$ 80, após intensa disputa entre compradores. O mesmo produto custa, no máximo, R$ 15 em Sento Sé.

Para quem não conseguiu ganhar dinheiro com a pedra, a corrida pela água se dá em condições subumanas. No acampamento que serve de acesso para a face menos acidentada da serra, garimpeiros recorrem a dois poços localizados na área de uma barragem desativada.

Com a água lamacenta ou esverdeada, cozinham, lavam as roupas e o corpo, algo considerado quase um luxo para os trabalhadores que fixaram moradia na mina. Em volta dos buracos, é comum ficar uma semana sem banho. O que sobra nos baldes, quando muito, dá apenas para se limpar após as necessidades fisiológicas, feitas em áreas batizadas de “cagadouros”.

Há ainda quem use os poços para matar a sede, ignorando o alto risco de contrair infecções provocadas pela contaminação da água. “Vi muita gente aqui reclamando de febre, dor de barriga e coceiras depois de beber ou tomar banho lá”, conta Marcelo Correia de Alcântara, fabricante de picolé em Jussara, que montou uma tenda na entrada do garimpo para vender, basicamente, feijão, arroz, açúcar, café, farinha de milho, rapadura, água mineral e cachaça, largamente consumida na Quixaba, onde é batizada de “gás”.

Na escassez hídrica da caatinga, os garimpeiros vivem a expectativa de que a prefeitura de Sento Sé ou órgãos governamentais os ajudem a minimizar a carência de água. Sabem que, do céu, não cairá uma gota por longo tempo. Basta olhar a vegetação em volta. Mandacaru sem flor no pé da serra é um sinal da chuva longe do sertão.

  • (Foto: Arisson Marinho/CORREIO )
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Mina é vista como bênção para salvar Sento Sé
Atribuir a descoberta da jazida de ametista a um ato divino para salvar Sento Sé se tornou quase unanimidade nas conversas entre garimpeiros e moradores. Lá, a mina é classificada como a “bênção de Deus” sobre a cidade. Não poderia ser diferente. Além da religiosidade comum ao sertanejo, não havia perspectiva de escapar da grave crise iniciada em 2008.

Naquele ano, se intensificava o processo de fechamento da Frutimag, que produzia uvas de alta qualidade destinadas ao mercado internacional. No auge, empregava 3,1 mil pessoas. Grande parte de Sento Sé. Era a maior fonte de trabalho e renda da cidade.

De uma vez, a Frutimag mandou embora os funcionários e encerrou as atividades. Dono da empresa, o ex-governador mineiro Newton Cardoso responsabilizou o Estado. As condições da BA-210, com 50 quilômetros de estrada de chão e esburacada, inviabilizavam o negócio, disse à época. Além de dificultar o escoamento da produção, as uvas ficavam machucadas e perdiam valor.

Começou ali o calvário em Sento Sé. Com 41 mil habitantes, a cidade é a terceira maior da Bahia em tamanho e também na quantidade de pessoas em situação de miséria, de acordo com dados do IBGE. Sobrou só a cebola, base da agricultura local.

Até que veio a pedra. E com ela um novo movimento. Nas últimas semanas, os seis pequenos hotéis da cidade não penaram mais para ocupar os leitos. Estão lotados. O comércio sentiu de imediato o reforço da ametista.

Luiz Riomar, dono de um restaurante na Praça João Nunes Sento Sé, a maior da cidade, conta que multiplicou por quatro o faturamento nos últimos 30 dias. “Vendíamos quatro caixas de cerveja por semana. Hoje é perto de 20. A venda de refeições seguiu o mesmo ritmo”, comemora.

No único posto de combustíveis, os frentistas afirmam que nunca viram tamanho fluxo de veículos e que também nunca venderam tanto. Mercados, lojas de ferramentas e imóveis para aluguel experimentam o mesmo boom. Vendedores de comida e bebida migraram para o garimpo. Mas a ametista trouxe também problemas e o lado obscuro do comércio de pedras preciosas, o que poderá ser visto amanhã, na segunda e última reportagem sobre a mina.

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