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Medicina do estilo de vida pode mudar sua vida

Alimentar-se corretamente, fazer exercício físico, dormir bem, controlar o estresse. A receita básica para a saúde é conhecida por todos. Mas ainda adotada por poucos. A pesquisa Sinais da Nutrição depois dos 50, realizada pelo Ibope e desenvolvida pelo multivitamínico Centrum, por exemplo, apontou um aspecto da questão: dos 613 homens e mulheres com mais de cinqüenta anos ouvidos, 61% afirmaram que sua alimentação hoje é igual ou pior do que era antes.

O problema é que para ser seguida, a receita da vida saudável implica mudar de verdade comportamentos e mantê-los ao longo da vida. Está aí, porém, uma das maiores dificuldades da maioria das pessoas. Uma nova especialidade que começa a se instalar no Brasil tem como objetivo exatamente ajudar a vencer esse desafio. A medicina do estilo de vida – área em ascensão em todo o mundo – se propõe a prevenir e a tratar fatores de risco comportamentais associados ao desencadeamento de doenças como as cardiovasculares e a diabetes.

O médico americano Edward Phillips, de Harvard, é um dos pioneiros da nova especialidade.
O médico americano Edward Phillips, de Harvard,
é um dos pioneiros da nova especialidade.

A medicina do estilo de vida surgiu nos Estados Unidos, país cujos índices de enfermidades vinculadas ao modo como se vive são tão altos quantos os brasileiros. Para os estudiosos desse cenário, estava claro que era necessário avançar em outro caminho. A ciência havia progredido imensamente na criação de remédios e tecnologias para tratar a diabetes e a obesidade, por exemplo, alcançando um teto difícil de ser superado. Sem contar os custos do atendimento, cada vez mais elevados. Modificar efetivamente comportamentos, portanto, era o terreno a ser explorado, e com urgência.

Um dos pioneiros na área é o americano Edward Phillips, fundador e diretor do Instituto da Medicina do Estilo de Vida, centro abrigado na Universidade de Harvard, uma das mais respeitadas do mundo. “O estilo de vida deveria ser considerado um sinal vital, assim como a pressão arterial e a temperatura”, defende. Nos Estados Unidos, além de Harvard, outros serviços já dispõem de espaços dedicados à nova especialidade. Entre eles, o Joslin Diabetes Center e a Cleveland Clinic. A primeira instituição é referência mundial em pesquisa e tratamento de diabetes e a segunda, em cardiologia. Na Europa, entidades como a Sociedade Europeia de Medicina do Estilo de Vida agregam pesquisadores de todo o continente.

No Brasil, a especialidade começa a ser implantada no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Lá, um time de profissionais da saúde – não apenas médicos, mas também enfermeiros, nutricionistas, psicólogos – está colocando em prática os preceitos da nova área. Eles estão baseados em sólida fundamentação científica, que nada tem a ver com a onda de auto-ajuda barata que tomou conta do mundo nos últimos anos. Há basicamente duas linhas de entendimento e enfrentamento das questões comportamentais associadas às enfermidades. A primeira diz respeito à investigação do peso dos fatores psicossociais. Em relação às doenças cardiovasculares, por exemplo, os mais associados são a depressão, a ansiedade e o estresse.

Os médicos Marcelo Katz (à esq.), Raquel Dilguerian e Antônio Laurinavicius, do hospital israelita Albert Einstein
Os médicos Marcelo Katz (à esq.), Raquel Dilguerian e
Antônio Laurinavicius, do hospital israelita Albert Einstein.

Uma pesquisa realizada no Albert Einstein deixou claro o vínculo com a depressão. Em uma análise de 4,2 mil pacientes, 15% manifestavam sintomas depressivos. Após dois anos de acompanhamento, esses indivíduos formavam o grupo de maior incidência de tabagismo, sedentarismo e sobrepeso. “E independentemente da piora dos hábitos e do estilo de vida, a depressão se associou a níveis mais altos de uma proteína que serve como marcador de risco cardiovascular”, explica o médico Antonio Gabriele Laurinavicius, um dos autores do trabalho.

Mais recentemente, estudos mostraram a associação das enfermidades cardiovasculares com outros fatores comuns do cotidiano. “Entre eles estão o status da vida conjugal, a situação empregatícia ou o estresse vinculado ao cuidado de um parente enfermo”, explica o cardiologista Marcelo Katz, integrante do time da medicina do estilo de vida do hospital paulistano. Recentemente, pesquisadores da Universidade de Marburg, na Alemanha, divulgaram um estudo no qual comprovam, por exemplo, o peso do estresse no desenvolvimento da diabetes.

Eles compararam dois grupos de habitantes da Namíbia, na África: um vivia na zona rural e o outro, na cidade. Os índices de cortisol, o hormônio liberado em situações de estresse, eram muito mais altos entre os moradores urbanos. Além disso, 28% deles tinham a enfermidade já instalada, enquanto apenas 14% dos moradores da área rural apresentavam a doença. “Os resultados sugerem que a instabilidade sociocultural causada pela urbanização contribui para a elevação do risco de desenvolvimento da diabetes”, disse Peter Kann, um dos autores do trabalho.

O segundo ponto fundamental da nova especialidade é usar os mais recentes conhecimentos científicos para efetivamente ajudar as pessoas a mudarem seus hábitos. Há recursos interessantes para que a tarefa seja bem sucedida. Um deles é a entrevista motivacional. “Ela parte do princípio de que as pessoas transitam em uma espiral de motivação e ajusta a abordagem ao momento em que elas se encontram”, explica a médica Raquel Dilguerian de Oliveira Conceição, gerente médica do Albert Einstein, unidade Jardins.

Outro instrumento imprescindível é a avaliação do perfil de risco que os pacientes têm a respeito da própria saúde. Em geral, a perspectiva é otimista demais. Ou seja, acham que têm menos chance de desenvolver alguma doença do que realmente apresentam. Isso ficou evidente em um estudo realizado pelos especialistas, publicado na revista científica European Journal of Preventive Cardiology. Entre 6,5 mil executivos submetidos a um check-up, 91% daqueles que apresentavam alto risco para doenças cardiovasculares acreditavam possuir risco baixo ou intermediário.

A chance verdadeira de manifestar uma enfermidade cardiovascular é medida por duas ferramentas. A primeira é a avaliação da “idade cardíaca”, que indica o estado da saúde cardiovascular naquele momento. A segunda é o Lifetime Risk Score, que projeta os riscos até 85 anos de idade a partir da análise dos fatores pressão arterial, colesterol, diabetes e tabagismo. Quando se sabe o tamanho do problema fica mais fácil entender que é preciso de verdade mudar comportamentos se o objetivo é uma vida mais longa e saudável.

O executivo Alexandre Ferreira, 43 anos, de São Paulo, hoje é um corredor. Já tem fôlego inclusive para completar uma maratona de dez quilômetros. Há pouco tempo, porém, era, como ele mesmo diz, um sedentário convicto. A mudança aconteceu após um check-up a partir do qual se deu conta de que precisava trocar de hábitos para não adoecer. “E vi que é possível fazer isso sem atropelo e sem me privar de nada”, conta. Alexandre seguiu as orientações dos especialistas e começou devagar, pegando gosto aos poucos pela atividade física e pela dieta mais saudável.
O executivo Alexandre Ferreira, 43 anos, de São Paulo, hoje é um corredor.
Já tem fôlego inclusive para completar uma maratona de dez quilômetros.
Há pouco tempo, porém, era, como ele mesmo diz, um sedentário convicto.
A mudança aconteceu após um check-up a partir do qual se deu
conta de que precisava trocar de hábitos para não adoecer.
“E vi que é possível fazer isso sem atropelo e sem me privar de
nada”, conta. Alexandre seguiu as orientações dos especialistas
e começou devagar, pegando gosto aos poucos pela
atividade física e pela dieta mais saudável.

Para evitar que o paciente seja obrigado a visitar vários especialistas, num périplo por consultórios que na maioria das vezes acaba por desestimulá-lo, a medicina do estilo de vida instituiu a figura do coach de saúde. Trata-se de um profissional de saúde que ficará designado para acompanhá-lo. Pode ser o médico, o nutricionista, o psicólogo. É esse profissional que ajuda, por exemplo, na confecção de um recurso batizado de eneágono da saúde. O próprio paciente avalia nove aspectos de sua qualidade de vida – alimentação saudável e vidas pessoal e profissional estão entre elas – no momento atual e coloca, ele mesmo, a meta a ser atingida. O objetivo não pode ser algo muito difícil de ser alcançado. Qualquer pessoa que já tentou fazer uma tarefa muito acima de sua capacidade naquele momento sabe o quanto é frustrante não chegar onde se quer. A tendência, nesses casos, é abandonar todos os esforços e voltar ao ponto zero.

O coach também se torna o profissional responsável por acompanhar de perto os progressos e eventuais retrocessos dos pacientes. Ele pode fazer isso com telefonemas constantes, uso de redes sociais, mensagens de whatsapp. Esse auxílio muito próximo é fundamental para que o paciente não pare no meio do caminho, como evidenciou, por exemplo, pesquisa realizada na Queen Mary University of London, na Inglaterra. Os estudiosos constataram que, entre indivíduos que receberam periodicamente mensagens de texto os lembrando de tomar os remédios, 9% pararam completamente de tomar a medicação ou a ingeriram menos do que deveriam. Porém, entre o grupo que não recebeu as mensagens, o índice de abandono dos medicamentos ou de ingestão errada foi de 25%. “Na prática preventiva sabemos que estar ao lado do paciente é o principal fator”, diz a médica Raquel Conceição. “Todas as ferramentas que usarmos para apoiar o paciente em sua decisão valem a pena.”

Os conceitos da medicina do estilo de vida começam a ser implementados em novas iniciativas na área saúde e bem-estar. Um dos locais pautados pela abordagem é o Auraclara, em São Paulo, um centro de bem-estar e vida saudável. Ali, quem se matricula em um programa de emagrecimento, por exemplo, estará no centro de uma ação mais abrangente que envolve uma assessoria coletiva de especialistas. Funciona assim: dependendo do caso e das necessidades de cada indivíduo, forma-se um time que se reúne periodicamente para conversar sobre as características e as restrições dos indivíduos que tratam em conjunto. “Além da perda de peso, é necessário incentivar a pessoa a sentir os benefícios do cuidado consigo para a saúde a longo prazo”, diz a empresária Marina Amaral, 30 anos, idealizadora do projeto inaugurado em abril deste ano.

A meta é que o paciente perceba que o olhar de quem está cuidando dele vai além dos sintomas aparentes. “A pessoa precisa sentir que há um interesse genuíno nela dos profissionais que a atendem. Isso ajuda a contar claramente como é a sua rotina e pedir ajuda nos momentos em que dá vontade de desistir”, diz a nutricionista clínica e funcional Roberta Thawana. Ela chega a pedir àquelas com maior dificuldade para aderir à dieta que enviem, por email, o que comeram no dia para avaliar e sugerir mudanças. As reuniões são importantes porque, para essa equipe, as respostas do paciente dependem não apenas do organismo, mas também do meio no qual está inserido, como profissão e família. “A meta é dar suporte para vencer a fase de indecisão e resistência, auxiliar a pessoa assumir a responsabilidade de melhorar seu estilo de vida e vê-la colher os frutos”, diz a professora de educação física e terapeuta corporal Leca Bicalho.

Fonte: Istoé

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