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Medicamentos psiquiátricos são utilizados por jovens para aumento de desempenho

Prática de medicação de uso psiquiátrico cada vez mais comum esconde riscos.
Prática de medicação de uso psiquiátrico é  cada vez mais comum e esconde riscos.

As novas drogas da vez entre universitários e jovens profissionais passam longe de shows e baladas. As chamadas “smart drugs” são consumidas em universidades, cursinhos e escritórios.

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Para estudar por várias horas sem perder o foco, pessoas sem problemas psiquiátricos ou neurológicos estão tomando pílulas para transtorno de deficit de atenção, narcolepsia e até mal de Alzheimer.

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A Folha entrevistou cinco jovens, com idades entre 25 e 30 anos, que usam psicoestimulantes sem ter necessidade terapêutica. Todos citaram o desejo de turbinar os estudos.

O médico Lucas (nome fictício), 28, diz que começou a tomar ritalina, remédio para transtorno de deficit de atenção, por causa das longas horas de trabalho e as obrigações de estudo para a residência em ortopedia. Ele diz que só assim conseguia se manter concentrado e acordado.

“Deixa você mais focado. Para mim, fez efeito, mas eu comecei a sofrer com muita ansiedade e, no fim, comecei a ter crises de pânico”, relata.

Gabriela, 22, diz que conseguiu anfetaminas com uma colega em um cursinho para o concurso de admissão à carreira diplomática. Ela diz que, tirando a perda de apetite, ela não sentiu muita diferença.

“Consigo ficar mais acordada, mas não sei se rendo mais. Tenho tomado só quando preciso dar conta de muita matéria. Não acho que estou dependente”, avalia.

DOPING

Par alguns especialistas, as “drogas da inteligência” estão para o mundo acadêmico como os esteroides anabolizantes estão para o esportivo: embora possa haver algum ganho de resultado, há risco de vários efeitos colaterais.

Existe também um dilema ético: quem usa essas substâncias antes de uma prova, como um concurso público, teria vantagem sobre seus concorrentes. “Para mim, isso é doping”, diz o psiquiatra Mario Louzã, coordenador do Programa de Deficit de Atenção e Hiperatividade no Adulto do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clinicas.

Gilda Paolliello, professora de psiquiatria do Ipemed, pensa igual: “É concorrência desleal”. Ela diz que, em seu consultório, já consegue perceber uma grande quantidade de pré-universitários, “concurseiros” e executivos que têm abusado das substâncias.

Ao contrário de outros países, o Brasil ainda não tem dados sobre o uso “cosmético” desses remédios. O que se sabe é que a venda de psicoestimulantes aumentou 25% nos últimos cinco anos.

Juntas, as drogas dessa classe –Ritalina e Ritalina La (Novartis), Venvanse (Shire), Concerta (Janssen Cilag) e Stavigile (Libbs)– venderam 2,16 milhões de caixas entre julho de 2014 e julho de 2015.

Acredita-se que a moda tenha começado entre estudantes americanos e profissionais de Wall Street. Uma pesquisa divulgada em 2014 indica que quase um em cada cinco estudantes da “Ivy League” –grupo de universidades de elite que inclui Harvard– usaram algum tipo de “smart drug” durante o período letivo.

Em um artigo no “Journal of Medical Ethics”, Vince Cakic, da Universidade de Sidney, afirma que, no futuro, pode ser até que estudantes tenham de se submeter a exames de urina.

EFICÁCIA E RISCOS

A eficácia das “smart drugs” é polêmica. Os estudos, até agora, não têm resultados conclusivos: alguns indicam certos ganhos, outros mostram que não há vantagens para pessoas saudáveis.

Um dos exemplos é o modafinil, comercializado no Brasil como Stavigile. Seu uso registrado na Anvisa é para tratamento de narcolepsia, mas ela é muito popular entre os estudantes. Enquanto um trabalho de 2012 indicou que a modafinil conseguiu melhorar a performance cognitiva de médicos que estavam sem dormir, um trabalho de 2014 mostrou um resultado contrário; estudantes ficaram mais lentos para tomar decisões.

Especialistas alertam principalmente para a falta de estudos que indiquem possíveis danos do uso em longo prazo dessas drogas por quem não tem indicação médica.

Na internet, é fácil ter acesso a blogs e fóruns em que estudantes discutem o tema e ensinam estratégias de uso.

Embora sejam de uso controlado, os estudantes têm acesso relativamente fácil às pílulas no mercado paralelo, sobretudo em redes sociais.

“Os blogs vendem um pouco a ilusão de que você vai ficar muito inteligente e aprender tudo. Mesmo para uma pessoa sadia o aumento de concentração não é assim tão grande. Se a sua concentração já está em 100%, não vai para 200%”, explica Louzã.

Profissionais alertam também para efeitos negativos após o uso prolongado.

“Esses psicoestimulantes podem levar tanto à dependência física quanto à psíquica. Ou seja, a pessoa só consegue se sentir segura se usar” diz Gilda Paolliello.”É bem comum ter insônia e ansiedade. Além disso, o uso prolongado pode levar a problemas cardíacos, arritmia.”

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