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Companheira de Marielle: “Não consigo acreditar que não vai voltar”

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O programa Fantástico, da Rede Globo, exibiu neste domingo conversa com a família de Marielle Franco, vereadora assassinada no Rio de Janeiro no último dia 15 de março. A reportagem especial desta edição traz o desabafo da esposa de Marielle, Monica Tereza Benício, da filha de 19 anos, Luyara Santos, da irmã e dos pais da vereadora, além da assessora, que estava no carro no momento em que Marielle foi morta

Monica é arquiteta e vivia com Marielle há um ano. Juntas, as duas lutavam pela causa LGBT e, em suas postagens no Instagram, usavam a hashtag #NossasFamíliasExistem, em referência ao Estatuto da Família, que define como família somente a união entre homem e mulher. Esta foi a primeira entrevista da esposa depois do assassinato e ela desabafa: “Eu ainda não consigo acreditar que ela não vai voltar pra casa”.

Em sua última foto ao lado de Monica postada no Instagram, Marielle escreveu: “Parabéns pra essa cidade do coração, que, infelizmente, tem sido tão maltratada historicamente, inclusive nos últimos anos. E que quanto mais parece estar abandonada, mais fica hostil às mulheres e à população negra. Que nos próximos aniversários comemoremos como realmente gostaríamos: com um Rio para todas e todos!”.

Monica contou durante a reportagem que Marielle enviou uma mensagem quando já estava a caminho de casa, pouco antes de ser assassinada, perguntando se ela precisava de algo. A companheira da vereadora diz que, com a demora de Marielle em chegar, tentou ligar mais de 20 vezes, sem sucesso, e começou a ficar desesperada. Foi quando recebeu a chamada de uma amiga que estava em frente da casa que dividia com Marielle, pedindo que abrisse a porta.

Ao ver a cara da amiga começou a indagar: “Aconteceu alguma coisa com Marielle?” Monica conta chorando que a amiga disse “você precisa ser forte, a Marielle morreu”.

Perguntada se Marielle havia recebido alguma ameaça, a companheira da vereadora foi taxativa: “Ela tava feliz, despreocupada. Íamos casar no ano que vem. […]”. Diz Monica sobre a vida em conjunto com a política:  “Tudo fomos construindo aos poucos, um dia um tapete […], tudo com muito amor”.

Marielle Franco e sua mulher Monica Benício tiram selfie no Complexo da Maré, Rio de Janeiro

Fake News

Durante a reportagem veiculada pelo Fantástico, a propagação das notícias falsas, as fake news, a respeito de Marielle também foi discutida. Uma das principais propagadoras de notícias falsas foi Marília Castro Neves, do TJ-RJ, que afirmou em comentário no Facebook que a vereadora morta ‘foi eleita pelo Comando Vermelho’. O PSOL, partido de Marielle, afirma que entrará com ação contra a desembargadora.

As mentiras difundidas por Marília, dentre a tantas outras –como o boato afirmando que a vereadora assassinada teria sido casada com o traficante Marcinho VP no passado–, serviram de base para que muitas pessoas comemorassem nas redes a morte de Marielle. “É inadmissível uma pessoa comemorar a morte de outra pessoa”, disse Anielle Franco, irmã da vereadora morta, em tom de revolta.

“Quase ninguém no Brasil, pode falar da minha filha”, complementou o pai de Marielle.

Desmaiados

Em áudio exibido durante o programa, a assessora de Marielle é ouvida entre soluços após o assassinato, em um telefonema com seu marido, dizendo que estava bem, mas pedindo que o marido rezasse, pois Marielle e Anderson, o motorista da vereadora, estavam desmaiados.

Questionada sobre quando foi que percebeu que Marielle e Anderson não estavam desmaiados mas sim mortos, a assessora respondeu que escutou policiais dizendo que haviam “dois mortos e uma sobrevivente”.

“Sobreviver é muito cruel. […] Queria a Marielle viva, o Anderson vivo”, complementou a assessora.

A viúva do motorista do carro em que Marielle estava e que morreu vítima dos tiros também falou sobre o seu luto. Ágatha Arnaus Reis, esposa de Anderson Pedro Gomes, afirmou: “A nossa rocha de casa era ele”. Anderson deixou um filho de apenas um ano.

“Meu marido era uma pessoa sempre calma […] querido por todos”, disse a viúva. “Se a morte [de Anderson] mudar qualquer coisa […] isso é esperança, não é possível que a gente vá ficar abandonados por tanto tempo”.

Marielle foi assassinada na última quinta-feira vítima do que a polícia suspeita ter sido uma emboscada. Ela levou quatro tiros na cabeça depois que um carro cercou o veículo em que ela estava e disparou. Os tiros acertaram a vereadora e o motorista. Uma assessora também estava no veículo e ficou ferida por estilhaços.

As investigações da polícia trabalham com a suspeita de execução. Marielle era ativista pelos direitos humanos, pela causa LGBT, negros e das mulheres. Havia sido designada para monitorar a Intervenção federal no Rio de Janeiro, ação que ela se colocava contra, há duas semanas para a relatoria de uma comissão na Câmara municipal. Nos dias 10 e 11 de março, a vereadora havia criticado em seu Facebook a ação dos militares no Rio. Em sua última postagem afirmou: ‘Mais um homicídio de um jovem que pode estar entrando para a conta da PM. Matheus Melo estava saindo da igreja. Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”.