Cartas já não adiantam mais

Cartas já não adiantam mais

Desde 1º de maio de 1500, com os escritos de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal D. Manuel anunciando a descoberta da Terra de Vera Cruz, o País ostenta um histórico de cartas que marcaram a vida política nacional sendo endereçadas ou redigidas por governantes. Do Brasil-Colônia até o passado recente, passando pelo manuscrito deixado pelo ex-presidente Getúlio Vargas antes de seu suicídio, as cartas costumam chacoalhar o status quo. Foi uma missiva da lavra de Luiz Inácio Lula da Silva e remetida ao Povo Brasileiro, em junho de 2002, a responsável por pavimentar sua eleição à Presidência da República e dar início à era PT, que, ao que tudo indica, será encerrada após 13 anos. Em 7 de dezembro de 2015, o então vice-presidente da República, Michel Temer, também lançou mão deste expediente ao enviar à presidente Dilma Rousseff o que chamou de “uma carta pessoal” e “um desabafo”. O documento oficializou o rompimento com a presidente. Em todos esses casos, as cartas tiveram o conteúdo e o timing exatos para causar os efeitos que pretendiam. Na terça 16, Dilma resolveu tentar imitar o antecessor e outros líderes políticos nacionais, mas errou na forma, na substância e no tempo.

A petista optou por ler um discurso para imprensa direcionado à população brasileira e aos senadores da República. Convocou jornalistas, mas sequer permitiu que lhe dirigissem perguntas. Sua iniciativa, a apenas nove dias do início do julgamento final do impeachment, chegou tarde demais. Aliados defendiam que o documento propondo plebiscito e sugerindo novas eleições, para ter a chance de causar alguma transformação no cenário adverso, deveria ter sido publicado antes da votação da Câmara dos Deputados pela admissibilidade do processo de impeachment. Da maneira como foi apresentada, a carta teve impacto reduzido e durou poucas horas. Logo foi ofuscado pela decisão do Supremo de autorizar a investigação contra ele, Lula e ministros por suposta obstrução de Justiça (leia mais na pág.30).

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A ILHA DA FANTASIA DE DILMA

O QUE ELA DISSE
“Na jornada para me defender do impeachment me aproximei mais do povo. Ouvi também críticas duras ao meu governo, a erros que foram cometidos e a medidas e políticas que não foram adotadas. Acolho essas críticas com humildade e determinação…”
A REALIDADE
A presidente ficou encastelada no Palácio da Alvorada e seu contato com o “povo” deu-se, na verdade, apenas em eventos para platéias de convertidos. Embora tenha afirmado que acolheu “críticas com humildade”, Dilma foi incapaz de expor quais foram elas.

O QUE ELA DISSE
“Por isso, afirmamos que, se consumado o impeachment sem crime de responsabilidade, teríamos um golpe de Estado.”
A REALIDADE
O processo de impeachment em curso respeitou todos os ritos, prazos e o direito de defesa constitucional, sempre assistido pelo Supremo Tribunal Federal.

O QUE ELA DISSE
“Por isso, a importância de assumirmos um claro compromisso com o Plebiscito e pela Reforma Política.”
A REALIDADE
O plebiscito com o objetivo de consultar a população sobre a convocação de novas eleições é considerado por parlamentares e especialistas um engodo. Isso porque um novo pleito depende de aprovação do Congresso Nacional, onde ela tem pouquíssimo apoio.

O QUE ELA DISSE
“Gerar mais e melhores empregos, fortalecer a saúde pública, ampliar o acesso e elevar a qualidade da educação…”
A REALIDADE
Dilma comandou o Brasil por seis anos e conseguiu retirar o País da situação de pleno emprego e entregá-lo com mais de 11 milhões de desempregados.

O QUE ELA DISSE
“Jamais se encontrará na minha vida registro de desonestidade, covardia ou traição.”
REALIDADE
De acordo com delatores da Lava Jato, Dilma foi eleita presidente da República em uma campanha presidencial irrigada com dinheiro de propina e pagamentos no caixa 2. Ela própria teria operado, segundo os depoimentos.

A essência do texto mostrou a seus destinatários que os três meses de afastamento não a fizeram reconhecer e corrigir repisados erros, como por exemplo, o de omitir a verdade. No discurso, apontou como saída da crise a convocação de um plebiscito para consultar se a população quer que sejam realizadas novas eleições. Entretanto, junto com a “solução mirabolante”, faltou-lhe a honestidade de contar aos brasileiros que sua ideia não depende apenas de si, mas sim do apoio do Congresso para viabilizá-la juridicamente. Todos sabem que a chance de os parlamentares aprovarem essa medida é praticamente nula. Dilma também sabe, mas preferiu abraçar a retórica da ficção. Da mesma forma, ela ofereceu a requentada ideia de realizar uma reforma política. Em 2013, quando a população ocupou as ruas, Dilma já havia sacado a ideia da cartola. Sem êxito. Na verdade, trata-se de uma solução utópica, mais uma que ela mesma sabe que não poderá entregar.

Ladainha repetida
Em sua mensagem, a presidente afastada também apresentou o que mais pareceu um programa de governo, como se excluísse os seis anos em que poderia ter realizado o que agora apresenta como solução. Falou em ”gerar mais e melhores empregos”. Claro, suprimiu na fala que sua gestão conseguiu a proeza de retirar o País da situação de pleno emprego e deixá-lo com mais de 11 milhões de desempregados.

Para não deixar dúvidas de que continua a mesma de sempre, mais uma vez terceirizou a culpa pelos seus fracassos. “Desde o início do meu segundo mandato, medidas, ações e reformas necessárias para o País enfrentar a grave crise econômica foram bloqueadas, sob a lógica irresponsável do ‘quanto pior, melhor’”. Não reconheceu, evidentemente, que, apesar de inúmeros apelos de diversos setores da sociedade civil, demorou uma eternidade para abandonar a política econômica anticíclica e promover o necessário ajuste fiscal. Quando tentou fazê-lo, já era tarde.

Por fim, Dilma apega-se à tese, já rechaçada por ministros da Suprema Corte do País, de que “se consumado o impeachment” haverá um “golpe de Estado”. A teoria quase dogmática não pára em pé. O processo de impeachment em curso no Congresso Nacional não só respeitou todos os ritos, prazos e o direito de defesa constitucional, como desde sempre foi assistido pelo Supremo Tribunal Federal, avança com transparência, e, em sua fase final, foi e será presidido pelo presidente da corte, Ricardo Lewandowski. Se as cartas dizem muito sobre seus autores, e Getúlio Vargas saiu da vida para entrar na história, Dilma deixará o Planalto para cair no esquecimento.

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