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Calculadora para emagrecer

Quando as fotos de Marilyn fazendo ginástica foram descobertas, há pouco tempo, o mundo ficou sabendo de um hábito que nos anos 50 era quase secreto em casa, sem nenhuma orientação de profissionais
Quando as fotos de Marilyn fazendo ginástica foram descobertas, há pouco tempo, o mundo ficou sabendo de um hábito que nos anos 50 era quase secreto em casa, sem nenhuma orientação de profissionais.

“Certa vez, reduzi um gordo enorme a um tamanho moderado, dentro de um breve período. Eu o fiz correr todas as manhãs até suar profusamente. Fazia então com que fosse esfregado com força e tomasse um banho quente (…). Algumas horas depois, eu lhe permitia comer livremente. E, por fim, fazia-o trabalhar.” A afirmação, um tanto quanto sem jeito, no avesso do modo politicamente correto de falar, pede absolvição sabendo-se ter sido escrita pelo médico e filósofo grego Claudio Galeno (129-216). Serve para demonstrar que a preocupação com os quilos a mais, o drama do ganho de peso, é ancestral, tem a idade da civilização. O que faz emagrecer de forma mais eficaz? Fechar a boca? Entupir-se de remédios? Esfalfar-se na academia? Sabe-se que a santíssima trindade da dieta – controle da comida, medicamentos e exercícios físicos – é incontornável, e do casamento dos três recursos resulta um corpo mais saudável. Aquilo a que a ciência ainda não respondeu com certeza, e que paira no campo das investigações, é como determinar a prevalência de um ou outro comportamento contra o sobrepeso. Diz o endocrinologista Antonio Carlos do Nascimento, de São Paulo: “Cada organismo reage de forma diferente aos tratamentos para emagrecer”.

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Tomem-se como referência as estatísticas brasileiras. Dos 50 milhões de homens e mulheres em guerra com a balança, cerca de 30% não conseguem voltar à boa forma apenas com mudanças no estilo de vida: alimentação adequada e corte do sedentarismo. Eles estão condenados a desajustes biológicos hereditários, vetores de um ritmo metabólico mais lento do que o normal. Sem medicamentos, portanto, muito provavelmente não perderão peso. Sim, o restante emagreceria reduzindo o consumo calórico ou adotando uma atividade regular – mas pouquíssimos têm força de vontade para comer menos ou conseguem tempo para calçar tênis. E assim caminha a humanidade, com índices de obesidade sempre em ascensão. O fundamental, portanto, é saber que somos nós e nossas circunstâncias. Não existe dieta mágica. Mas não há como começar um controle calórico sem ter a noção exata do que vai pelo corpo. Medir, e a partir da aferição estabelecer uma estratégia, é o primeiro, monumental e inovador passo.

Os Institutos Nacionais de Saúde (NIH, na sigla em inglês), o órgão responsável pelo incentivo de pesquisas médicas nos Estados Unidos, acabam de desenvolver uma calculadora que planeja o limite de consumo calórico diário propício ao emagrecimento a partir de informações detalhadíssimas dadas pelo usuário. É a Body Weight Planner (planejadora de peso corporal). VEJA firmou parceria com os NIH e oferece a calculadora, evidentemente traduzida para o português, nas edições para tablets e iPhone. É ferramenta para mudar o tom da prosa em torno das dietas. O extraordinário, res­sal­ve-se, é a possibilidade de fornecer informações específicas e obter respostas absolutamente individuais. Um dos caminhos para tanta precisão é o aprofundamento dos dados solicitados. Há quatro etapas a ser seguidas. Na primeira, o usuário anota peso, sexo, idade e altura. As informações são cruciais para que o programa reconheça o tipo de metabolismo em questão. Sabe-se que a quantidade de gordura é diferente no homem e na mulher. O organismo feminino tem 50% mais tecido adiposo que o masculino. Por isso, um homem e uma mulher com o mesmo peso necessitam de uma dieta diferente para mantê-lo – ela deverá consumir 10% menos calorias (veja o quadro na página anterior). Nessa mesma etapa, a calculadora pede um olhar sobre a atividade física realizada, como o hábito de praticar esportes. Nesse ponto também se define o nível de esforço físico que caracteriza a rotina de trabalho – leve, médio ou pesado. No segundo passo, o usuário informa o peso que pretende atingir e o tempo para alcançá-lo. No terceiro, a calculadora sugere mudanças na atividade física (de caminhadas leves à prática diária de natação) e ainda pede indicações do real comprometimento com a nova vida. Por fim, o resultado: a quantidade máxima de calorias a ser consumida para emagrecer.

A Body Weight Planner foi construída a partir de estudos conduzidos entre os anos de 2003 a 2011, avaliados por uma equipe de pesquisadores de instituições de ensino de ponta, como as universidades Harvard e Colúmbia. Ao longo de oito anos, estatísticos, biólogos, matemáticos e fisiologistas criaram algoritmos capazes de interpretar e cruzar as informações fornecidas pelos usuários. No início, a calculadora foi elaborada para ser usada apenas por pesquisadores. E, mesmo sem divulgação alguma, o recurso fez imenso sucesso. “Em quatro anos, 2 milhões de pessoas haviam acessado a ferramenta”, disse a VEJA o fisiologista e matemático Kevin Hall, do Instituto Nacional de Diabetes e Doenças Digestivas e Renais dos NIH, coordenador do grupo de pesquisa da Body Weight Planner. A equipe de Hall, então, decidiu torná-la mais didática, para que um número ainda maior de pessoas pudesse acessar o recurso que VEJA agora oferece.

Planeje sua perda de peso com a calculadora do instituto americano de pesquisa médica

A nova calculadora quebra um paradigma na medicina. Até agora, na maioria dos consultórios de endocrinologistas, o cálculo para emagrecer estava ancorado em raciocínios ligeiros, como a badalada e frágil “conta das 500 calorias”. O cálculo: da quantidade de calorias necessárias para manter o peso ideal, subtraem-se 500 delas. Uma mulher de 30 anos, por exemplo, deve consumir cerca de 2 000 calorias diárias. Para emagrecer, seriam 1 500, tirando da mesa algo como um prato e meio de macarrão à bolonhesa. Em relação à prática de atividade física, ouve-se quase sempre a mesma cantilena: “Faça regularmente exercícios físicos moderados, de preferência os aeróbicos, uma hora por dia”. A lógica toda soa correta. Mas desconsidera detalhes definidores do sucesso de um regime. Eis o pulo do gato da calculadora americana, a investigação primorosa sobre o tipo de atividade física que o usuário pratica e se propõe a manter ou aprimorar, até mesmo em situações cotidianas, no trabalho ou em casa, com perguntas como: “Você fica sentado no computador o dia inteiro?”, “Usa bicicleta para se locomover?”. Faz toda a diferença permanecer sentado ou não.

A relação direta entre exercício físico, saúde e queima de calorias começou a ser estudada com profundidade apenas no fim da década de 60 – depois, portanto, da evidente constatação de que é fundamental fechar a boca, impressão intuitiva, e depois também dos primeiros medicamentos emagrecedores levados às farmácias na década de 50, as anfetaminas. Um dos principais arautos do corpo em movimento foi o médico america­no Kenneth Cooper. Seu método, o “Cooper”, criado nos anos 70, iniciava-se com corridas de 1,6 quilômetro em doze minutos, cinco vezes por semana. Progressivamente, a pessoa deveria aumentar seu ritmo, até atingir a marca dos 2,8 quilômetros, percorridos no mesmo tempo. O cardiologista inaugurou a ideia de que correr faz bem ao coração, aos pulmões e acelera o metabolismo – e quem nunca praticou um cooper? As corridas, antes dele, eram prerrogativa de atletas e pugilistas. Para os não esportistas, eram quase uma aberração. Em 1968, o senador americano Strom Thurmond chegou a ser parado por policiais na cidade de Greenville, na Carolina do Sul, por estar correndo nas ruas. A atitude foi considerada “suspeita”. Até então, faziam-se exercícios em casa, sem controle, no segredo da vida privada.

No século XIX, Elisabeth Amalie Eugenie von Wittelsbach, a imperatriz Sissi, mulher do imperador austríaco Franz Joseph, extenuava-se na academia particular construída a seu pedido no palácio em que morava. Sissi pesava 47 quilos e tinha a cintura de 50 centímetros. Se suas medidas ultrapassassem poucos milímetros, a intensidade da ginástica aumentava – e por conta própria. Em um exemplo mais recente, como não lembrar de Marilyn Monroe, levantando pesos vestida de calça jeans? Quando as fotos privadas de Mari­lyn vazaram, foi um escândalo. Nos anos 80, Jane Fonda inventou um estilo de vida ao lançar vídeos de aeróbica protagonizados por ela. As mulheres a imitavam em casa, praticando os exercícios em pequenos espaços, sobre colchonetes. O primeiro vídeo, produzido em 1982, vendeu 17 milhões de cópias nos Estados Unidos. A ideia da ginástica como atividade aberta, sem medo, como a celebramos hoje, até chegou a ser ensaiada no século XIX, mas não vingou. A primeira academia de ginástica de que se tem notícia, com um desenho semelhante ao que se vê atualmente, é do início do século XIX. Em 1811, o pedagogo alemão Friedrich Lud­wig Jahn, conhecido como “o pai da ginástica”, teve a ideia de criar salões ao ar livre para reavivar os ânimos dos alemães, depois da invasão de Napoleão. Jahn inaugurou o primeiro Turnplatz (ginásio a céu aberto), em Berlim. Mas logo a iniciativa se transformou em um movimento nacionalista – os centros foram alçados a abrigos de discussões políticas, espaços para cultivar uma suposta força moral e a exaltação patriótica. Deu no que deu. Nos Estados Unidos, as academias surgiram em 1914. Eram salões equipados com máquinas feitas com cilindros e molas de aço, que espremiam o corpo das moças para cima e para baixo. Sumiram. Antes, portanto, da atual explosão das academias, na cola de Jane Fonda, e na tríade de possibilidades de ataque à gordura, despontaram as mais evidentes: comer menos e tomar remédios.

A calculadora americana, simples e eficaz, apresenta-se como uma arma capaz de pôr tudo isso num caldeirão e, rapidamente, oferecer um guia. Sozinha, é claro, não ganhará a batalha contra a gordura. Mas é o mais bem-aca­ba­do mapa jamais desenhado. Um dos grandes problemas a ser resolvidos é a queima das células de gordura. Um estudo do Instituto Karolinska, em Estocolmo, na Suécia, revelou que o número de células adiposas é definido até os 20 anos. Quando uma pessoa emagrece, os adipócitos apenas perdem volume, mas continuam lá, sedentos por voltar ao tamanho de antes. Entre os pouquíssimos recursos na medicina capazes de driblar em parte esse detalhe cruel da natureza, está a criolipólise. A metodologia, sensação do momento nas clínicas dermatológicas, consiste em reduzir cerca de 30% da gordura de determinada região do corpo (barriga e flancos) por meio de congelamento.

Outro caminho, alheio ao detalhamento entregue pela calculadora, é o radicalismo das dietas rigorosas. Os regimes extremamente restritivos compõem a maioria dos programas de emagrecimento. O mundo provavelmente teria menos obesos sem os regimes muito extremados. O radicalismo à mesa caiu nas graças dos americanos na década de 70, quando o cardiologista americano Robert Atkins condenou os carboidratos e elegeu as proteínas e as gorduras como aliadas dos corpos magros. Os seguidores de Atkins são liberados para comer ovos, bacon e carnes e chegam a perder 10% do peso corporal em apenas quinze dias. No entanto, 80% deles desistem da dieta em menos de três meses e recuperam o peso. As estatísticas são as mesmas para qualquer dieta extremada. A explicação principal é fisiológica: em pouco tempo, a perda de gordura faz com que o organismo, para se defender, reduza o ritmo natural do seu gasto calórico, tornando o regime ineficaz. Além disso, mesmo com o sistema metabólico mais lento, não se tolera passar fome por um longo período. Desiste-se da dieta. A calculadora está no avesso desse extremismo.

Fonte: Veja

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